TOP 10 – Os melhores discos de 2016 por Rodrigo Menegat

Mais um ano do black metal.

Como de praxe nos últimos tempos, o gênero que ficou conhecido graças aos noruegueses que queimam igrejas e esfaqueiam os próprios amigos está na vanguarda do metal em 2017. Dos dez grandes discos que ouvi nos últimos 365 dias, nove são do estilo.

É verdade que muitos dos lançamentos se afastam das raízes – Astronoid e Borknagar, por exemplo, têm poucas semelhanças com Bathory e Mayhem. Entretanto, isso mostra que os músicos estão dispostos a abandonar a carapuça de satanismo e misantropia e explorar novos terrenos. Por mais que puristas façam caretas, essa tendência é algo a ser saudado.

Confira:

10.    Cough – Still They Pray

 Doom metal que flerta com o sludge metal e não esconde a reverência ao Electric Wizard e ao Black Sabbath: o terceiro álbum do Cough, lançado cinco anos depois de seu predecessor, tinha tudo para ser genérico, mas não é.

“Still They Pray” soa novo, apesar de insistir na fórmula de riffs arrastados, vocal rouco e faixas longas. Parte disso é porque essa receita realmente funciona, e também porque o peso do trabalho é esmagador. Dead Among The Roses, a grande canção do disco, beira o funeral doom metal, com acordes retumbantes e minimalistas.

Outro mérito do Cough é produzir uma música verdadeiramente perturbadora. Poucas bandas do estilo soam tão grotescas. A música se torna ainda mais angustiante graças aos vocais sufocantes de Parker Chandler, que parecer lutar por ar a cada verso.

Além do doom metal e do sludge, outros estilos temperam o álbum, o que contribui para deixar os 67 minutos de duração – muita coisa para um disco tão incômodo – mais palatáveis.

Let It Bleed lembra o Alice In Chains nos momentos mais melancólicos e suicidas da banda grunge. Isto é, antes da passagem final, um solo de guitarra carregado de pedais que culmina em um minuto de ruídos aparentemente catatônicos.

A introdução de Shadow of The Torturer é um solo de guitarra inspirado no rock psicodélico/progressivo, não muito distante dos momentos mais etéreos do Pink Floyd.

O trabalho termina com a faixa-título: pouco mais de quatro minutos de voz e violão nos quais novamente se destaca a cantoria de Chandler.

Destaques: Dead Among the Roses, Let It Bleed

9.  Nails – You Will Never Be One of Us

O Nails não precisou de mais que 21 minutos para mostrar o som mais violento de 2016.  Apesar disso, para os padrões da banda, trata-se de uma maratona: “You Will Never Be One of Us” é o full-length mais extenso da carreira do trio californiano.

Esses norte-americanos são capazes de condensar uma quantidade surreal de brutalidade em pouquíssimo tempo e ainda encontram espaço para mostrar alguma variação rítmica. Friend To All, por exemplo, tem 46 segundos – o suficiente para encaixar três riffs e um solo de baixo.

Todos os adjetivos que caracterizam um bom álbum de grindcore/powerviolence se aplicam ao trabalho: podre, sujo, agressivo, pesado, virulento. São quase dez faixas de caos e velocidade. Apenas a última música, They Come Crawling Back, destoa: ela é mais longa, com aproximadamente oito minutos e trechos arrastados.

O álbum não se destaca pela técnica, mas mostra que, em uma era de devaneios atmosféricos, ainda é permitido fazer um som daqueles que dão vontade de bater a cabeça na parede e chutar estranhos na rua.

Destaques: In Pain, Friend To All, They Come Crawling Back

 

8.  Numenorean – Home

“Home”, debut dos canadenses do Numenorean, é um álbum de post-black metal que não deixa a agressividade de lado.

O disco exibe elementos atmosféricos, interlúdios progressivos, faixas longas e todas essas coisas que estão na moda, mas também impõe crueza e violência. O grande mérito da banda é explorar influências modernas enquanto cultua as origens agressivas do gênero.

Em seu Bandcamp, o grupo afirma que “Home” trata da “dor da jornada da vida” e invoca a imagem de uma criança que “morre sorrindo, na alegria da ignorância eterna”.

Desse conceito, surgiu uma arte de capa polêmica. Trata-se de uma fotografia de Kristen MacDonald, criança estadunidense de dois anos que foi morta a facadas pelo pai em 1970.

Os detratores afirmam que usar a figura de um bebê apunhalado é uma espécie vil de promoção. A julgar pela qualidade da música, porém, o Numenorean não precisa de táticas baratas para ficar em evidência.

Destaques: Devour

 

7.  Saor – Guardians

“Guardians” é um disco de pagan black metal indiscutivelmente repetitivo, cheio de riffs e passagens redundantes. Entretanto, a cada ciclo, os mesmos acordes apresentam sentimentos mais intensos. As faixas longas, com arranjos hipnóticos, sugerem imagens e texturas vívidas, sublimes.

A banda abusa de instrumentos de corda, da percussão e da gaita de fole, o que adiciona variações e densidade às músicas. O vocal grave, distorcido ao ponto de parecer artificial, soa estranho, mas não apaga o brilho das melodias. São composições que evoluem naturalmente e não se tornam maçantes, apesar de longas – o disco tem cinco faixas que ocupam 55 minutos.

O escocês Andy Marshall é responsável por todas as composições do Saor, que são executadas em pareceria com um grupo de músicos contratados. Liricamente, ele preocupa-se com os mitos e paisagens de sua terra natal. O trabalho soa sincero e carregado de sentimento, o que compensa a insistência em alguns clichês. Ao final do álbum, a força emocional acumulada é enorme.

Destaques: Hearth, The Declaration

6. Alcest – Kodama

Quando, ao lançar “Shelter” (2014), Stéphane ‘Neige’ Paut parou de cantar gutural e posou vestindo um cardigã para a revista Rolling Stone, parecia que um dos músicos mais talentosos do metal havia abandonado o gênero.

Por sorte, em “Kodama”, o multi-instrumentista francês demonstra ter se arrependido do caminho trilhado pelo Alcest no álbum anterior. Os gritos, os blast-beats e a agressividade voltaram a acompanhar o shoegaze e as melodias oníricas.

Oiseaux de Proie, primeiro single do disco, é a melhor faixa do ano. Carregada de variações, elementos progressivos e, principalmente, peso, a música mostra Neige no topo de suas habilidades como compositor.

Se o restante do álbum tivesse a mesma qualidade, o lançamento seria um clássico instantâneo. Entretanto, o trabalho, como um todo, fica um degrau abaixo. Isso não quer dizer que não existam outros momentos memoráveis, como a faixa-título e Je Suis D’ailleurs.

Ainda que não tenha a mesma qualidade e peso que “Écailles de Lune” (2010), disco que foi tocado na íntegra pela banda na última turnê, “Kodama” revela que Neige ainda está interessado no black metal e indica que coisas ótimas estão por vir.

Destaques: Oiseaux de Proie, Kodama

5. Rotting Christ – Rituals

 

O Rotting Christ segue inspirando-se em diversas mitologias para criar sua música e dessa vez transformou todas essas influências em uma espécie de culto. Com letras em francês, hebraico, grego, sânscrito e latim, “Rituals” explora a tradição oculta de várias culturas.

Como o título sugere, o álbum segue um tema claro: cada uma das onze faixas tenta simular um ritual. Ainda que a abordagem não seja especialmente criativa, as composições dos irmãos Tolis soam convincentes e assustadoras.

Logo na primeira faixa, In Nomine Dei Nostri, são invocados os nomes de dezesseis demônios. O refrão sugere uma aclamação religiosa. Essa estrutura quase mística se repete na maioria das canções.

Em Elthe Kyrie (“Venha, senhor”, em grego), uma vocalista convidada – Danai Katsameni, atriz do Teatro Nacional da Grécia – canta, grita e invoca a chegada de um novo deus. A interpretação é baseada em “As Mênades”, tragédia de Eurípides. A performance da cantora lembra Marsha Arkhipova, do Arkona.

O melhor momento do disco, porém, é For a Voice Like Thunder. Trata-se de uma interpretação de um poema de William Blake, retratando um cenário apocalíptico e repreendendo os pecadores responsáveis pela ira divina.

Destaques: Elthe Kyrie, For a Voice Like Thunder

4. Borknagar – Winter Thrice

O novo álbum do Borknagar tem menos black metal e mais metal progressivo. “Winter Thrice” consolida o caminho que já era indicado nos lançamentos anteriores da banda, mas com uma abordagem ainda mais suave e intrincada.

As canções fluem de maneira pacífica até explodirem em esporádicas passagens violentas. É apenas nesses trechos, quando o sangue norueguês do sexteto aflora, que a música soa extrema.

O grupo usou três vocalistas – e são vocalistas principais, não meros backing vocals – no álbum, e essa variação de vozes é um dos pontos fortes do trabalho.

A exuberância vocal fica evidente já na primeira faixa, The Rhymes of The Mountain, que abre com cantos graves e limpos, acompanhados por um gutural quase imperceptível ao fundo.

O disco segue com composições que, apesar de intrincadas, são facilmente cantaroláveis. Provavelmente, é um dos álbuns de black metal mais grudentos já lançados. Por mais untr00 que isso soe, é algo ótimo.

Destaques: The Rhymes of The Mountain, Panorama

 

3. Hail Spirit Noir – Mayhem In Blue

“Pneuma” (2012), primeiro álbum do Hail Spirit Noir, já era descrito como black metal psicodélico – e só porque colocava uns tecladinhos sessentistas na mistura. Agora, no quarto lançamento da carreira, o trio grego está realmente tocando algo lisérgico e estranho.

A banda abriu mão de qualquer fórmula em “Mayhem In Blue”, aparentemente orgulhando-se da própria imprevisibilidade. O resultado é um trabalho amedrontador, que choca não por ser violento, mas sim por ser enigmático.

Ambientações no teclado, vozes fantasmagóricas, resmungos incongruentes, passagens acústicas e instrumentos de corda indefiníveis são os principais elementos do disco. Entretanto, refrões grudentos e passagens melódicas também estão presentes.

Esses trechos, mais tranquilos e convencionais, soam como breves retornos à Terra em um disco que é místico, sobrenatural e até mesmo alienígena na maior parte do tempo.

Destaques: Riders to Utopia, Lost In Satan’s Charm

2. Thy Catafalque – Meta

Apesar de ter, possivelmente, os fãs mais conservadores do metal, o black metal sempre foi uma área de vasto experimentalismo musical – é só pensar em bandas como Arcturus, Celtic Frost e Sigh. O Thy Catafalque, projeto do multi-instrumentista húngaro Tamás Kátai, segue essa linhagem e aposta na insanidade, com composições nada convencionais.

Riffs no estilo “Transilvanian Hunger” (Darktrhone, 1994), guturais agudos e a aura macabra característica do gênero estão presentes, sim – mas com menos destaque que passagens de música folclórica, sintetizadores e longos interlúdios eletrônicos que lembram o art-rock dos anos 1980.

Kátai não se contenta em temperar uma sonoridade convencional com suas ideias delirantes. Ele constrói uma estrutura que depende do experimentalismo. As maluquices de “Meta” não servem apenas de ornamento. Elas são a essência da música.

Destaques: Malmok Jarnak, 10^(-20) Angstrom

 

1. Astronoid – Air

 

“Air”, primeiro full-length do Astronoid, é diferente da enorme quantidade de álbuns de post-metal produzidos nos últimos anos. O grupo, como tantos outros do estilo, usa elementos de shoegaze e black metal na base de sua sonoridade. Entretanto, esse quinteto dos EUA passeia por influências improváveis que vêm de dentro e fora do metal.

Blast-beats e passagens cruas dividem espaço com solos rápidos, que poderiam estar em um álbum do Gamma Ray. Há trechos que lembram o rock alternativo de bandas como The Smashing Pumpkins e interlúdios febris que remetem ao space rock.

Sobre todas essas influências díspares, destaca-se a voz suave de Brett Boland, que não usa guturais em momento algum. Sua forma doce de cantar confere um ar sonhador à música, em contraste com o instrumental ríspido.

Ao misturar elementos canônicos do post-metal com influências externas, o Astronoid lançou um disco original e corajoso. Assim, demonstra que é possível encontrar novos ângulos mesmo em um gênero já saturado.

Destaques: Up And Atom, Tin Foil Hats

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Jornalista de 22 anos formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná. Gosto de futebol, amo o Internacional e escuto música podre.