SBG Entrevista: Thy Light

Símbolo do metal tupiniquim quando se fala em DSBM, o Thy Light é um conjunto de sensações das mais diversas, frias, duras, tristes e profundas.

“A vida é justamente isso: momentos bons intercalados com momentos ruins. Tenho a impressão de que na vida tive muito mais momentos ruins do que bons, ou pelo menos eles me marcaram de alguma forma muito mais significativa.” 

Alex Witchfinder, letrista

Formada em 2005 por Paolo Bruno (instrumentos e vocais) e Alex Witchfinder (letras), a banda é referência no estilo em território nacional. Lançaram uma demo, Suici.De.pression, em 2007 e o primeiro disco, No More Shall Dawn, seis anos depois.

Na entrevista eles nos contaram um pouco mais sobre as origens do grupo, suas inspirações e as dificuldades vividas ao longo desses 9 anos de Thy Light. As experiências marcantes, amizades e tristezas que fizeram parte desse crescimento, confira:

SBG: Quando a demo Suici.De.pression foi lançada, teve uma recepção extremamente positiva. Eu lembro de descobrir o Thy Light no Last.FM lá por 2009 e ver a página da banda bombando com elogios, além das várias reviews positivas em sites como o Metal Archives e em blogs especializados. Vocês esperavam, de alguma maneira, alcançar esse sucesso, esse status de banda de destaque no estilo?

Paolo Bruno: Não, não esperava sucesso algum. Na época em que o Thy Light foi criado, esse estilo DSBM sequer era conhecido no Brasil. Acho que se for parar pra pensar existiam no máximo 10 “bandas” que intitulavam o que tocavam como DSBM, ninguém acompanhava, ninguém se interessava, por isso mesmo seria um grande tiro no pé esperar fazer sucesso com algo assim. Foi por volta de 2008/2009 mesmo que o estilo meio que explodiu e apareceu uma certa moda em cima disso e talvez pelo Thy Light estar ali, no começo de tudo, acabou recebendo um certo reconhecimento mesmo sem esperar ou buscar por isso.

Alex Witchfinder: Sempre considerei o DSBM um estilo bastante de “nicho”, e acredito que essa época de 2007-2009 foi justamente quando o estilo se tornou mais popular graças à massiva presença dos blogs especializados e divulgação virtual. As bandas no estilo pipocavam, mas particularmente pouquíssimas me atraíam. No entanto a minha impressão era de que muita gente gostava de qualquer coisa que se rotulasse como “Suicidal Black Metal” ou “Depressive”, mesmo que as bandas não tivessem um pingo de qualidade… com o tempo muitas bandas no estilo “sumiram” (de certa forma, o Thy Light incluso), mas sempre foi interessante notar que mesmo com tantos anos de hiato entre a demo e o debut, sempre houve gente que vinha perguntar sobre a gente, sobre futuros lançamentos – em especial gente de fora. Enfim, como disse, é um estilo de nicho, não acho que tenhamos algum certo tipo de “sucesso”, mas as pessoas que gostam geralmente correm atrás, e acho que esse é um dos principais motivos pra que ainda ouçam falar do Thy Light por aí. Sobre destaque, acho estranho pensar que temos tanto espaço assim… quero dizer, bandas como o Shining, o Forgotten Tomb e o próprio Abyssic Hate sempre serão os cânones que acredito que nenhuma outra banda no estilo possa se equiparar. Prefiro pensar no Thy Light como um projeto do/para o underground. No fim das contas é algo que sempre teve muito mais a ver com a gente do que com qualquer busca pretensiosa por algum rótulo ou destaque

SBG: A demo de vocês foi lançada originalmente por uma gravadora australiana e depois relançada por um selo chinês, é isso mesmo? Sei que isso é relativamente comum no underground do metal, mas sempre fiquei curioso com essa internacionalização da produção, rs. Como isso aconteceu? Por que não lançar a obra por uma gravadora nacional?

Paolo: O que aconteceu no caso do lançamento da demo foi que todas as gravadoras nacionais com quem tentei contato se NEGARAM a lançar o Thy Light. Como disse na pergunta anterior, o estilo não era sequer conhecido aqui, eles achavam que não teriam retorno algum e talvez esse seja um dos motivos de não terem lançado. Eu cheguei a receber respostas do tipo “só lanço banda de amigos meus” de certas gravadoras. Porém eu mantinha um perfil no Myspace com as músicas, foi quando um amigo alemão que possui um projeto chamado Isolation, me disse que o Mitch [Mitchell Keepin, multi-instrumentista australiano]  (Funeral Mourning/Austere) estava com uma gravadora (Ruin Productions) e ficou interessado em lançar a Suici.De.pression. Acertamos tudo em questão de uma semana e o lançamento foi feito. Vai ser bem difícil o Thy Light trabalhar um dia com gravadoras nacionais, afinal, elas fecharam as portas na nossa cara no passado, hoje em dia nós estamos fechados pra elas.

Alex: Talvez seja tudo uma questão de timing. Quando a primeira demo foi lançada, era uma época em que havia essa “nova onda” do Suicidal Black Metal, e o MySpace acabou abrindo um monte de portas pra um monte de banda brasileira que começou a lançar coisa pelos selos internacionais. A internet sempre foi uma ferramenta que facilitou o contato entre pessoas com interesses comuns independente de onde elas fossem. Mas retomando a questão do timing, era uma época onde no Brasil as maiores bandas em destaque tinham a ver com o Brutal Death ou Brutal Black Metal, não era exatamente o que as pessoas daqui ouviam ou gostariam de ouvir naquele momento. Enfim, só fui ouvir falar de uma gravadora nacional querer lançar algo depois que a demo já tinha sido lançada há anos, quando estávamos já pensando no lançamento do debut. Mas o Paolo sempre foi o “grande manager”, e acredito que essas questões tenham a ver basicamente com distribuição e qualidade dos lançamentos – selos menores que acabem por priorizar essa distribuição. Mas sobre a tua pergunta, acho que ainda falta muito “know-how” de distribuição no Brasil. E não falo só em relação a música não, mas arte num geral: tem bastante gente produzindo, bastante gente querendo consumir – e consumindo material estrangeiro o tempo todo –, mas a forma de chegar até esse público ainda continua sendo bastante nebulosa. É antes de qualquer coisa uma questão cultural.

SBG: Da onde veio a ideia para o surgimento da banda? Dado que se passaram dois anos desde sua fundação até o lançamento da primeira demo, quais foram as dificuldades encontradas no caminho?

Paolo: Eu costumo dizer que o Thy Light é uma ferramenta que criei pra tirar nós da minha garganta. Toda frustração, decepção, tristeza e qualquer outro sentimento ruim que eu possuía eu coloquei no Thy Light e esse é o motivo dele existir. Quanto a dificuldades, bem, isso não existe porque nosso objetivo nunca foi obter sucesso, reconhecimento ou qualquer coisa, então, tudo que aconteceu foi legal, mas se não tivesse acontecido não faria diferença.

SBG: Por que aconteceu esse hiato tão grande entre o primeiro lançamento, a demo 2007, e o novo disco, de 2013?

Paolo: Eu só consigo escrever pro Thy Light se realmente estiver vivendo aquele clima negativo que coloco na música, então, resumidamente é isso. O Thy Light é mais sentimento do que música em si. Ficar lançando um álbum atrás do outro como se fosse apenas um passatempo ou diversão está fora de cogitação.

Alex: A vida dá muitas voltas, eis uma realidade. Não digo nem só em relação a inspiração pra toda essa questão de escrever num geral, mas foi um tempo em que eu particularmente estive ocupado preocupado com a graduação, mudanças de cidade, futuro, vida, relacionamentos, entre tantas outras coisas que tomavam a maior parte da minha atenção na época. De qualquer forma, nunca perdi o contato com o Paolo, e então só fui atrás quando ambos decidimos que era a hora certa. Essa é a forma mais honesta que a gente poderia ter feito isso dar certo, então foi assim que foi feito.

SBG: Em 2010, alguns rumores indicavam uma relação entre o Thy Light e o Abske Fides, atribuindo às letras de ambas as bandas ao Alex. Isso é verdade? Caso sim, como surgiu essa relação?

Alex: Essa história é bem mais antiga, pra falar a verdade. Não lembro exatamente de que ano vem isso. Ela tem seu fundo de verdade, ainda que tenha sido um tanto deturpada ao longo do tempo. Enfim, acompanho o Abske desde o princípio. Sou amigo do Fred (que usa o pseudônimo de Nihil) e do Bruno (na época, conhecido por Cokkhammer), os fundadores da banda, desde antes de eles resolverem começar com o Abske. Acompanhei tudo bem de perto, estava no ensaio quando as cópias do encarte da Illness [demo de 2004] ficaram prontas, ajudei no processo de fechar o “contrato” com a Ostra Records da França pra lançarem a Apart From The World [primeiro EP, de 2006] (inclusive a caligrafia das letras no encarte é minha), e por aí vai… Em 2006 o Fred e eu fomos morar juntos (o Bruno também, embora na época ele já tivesse deixado a banda), e por conta de uma peça de teatro apresentada em Curitiba na época (uma montagem de 4:48 – Psicose, da dramaturga inglesa Sarah Kane) o Fred resolveu que queria lançar um disco conceitual pro Abske, e me pediu pra escrever as letras. Baseado naquilo, escrevi umas seis ou sete letras, que por fim ele acabou não usando oficialmente. Pra não dizer que não usou nenhuma, no debut do Abske a letra da música “4:48” é minha, e foi escrita naquela época. Essa história ficou mais ou menos difundida porque ainda em 2006 eu divulguei aquelas letras na internet, e lembro que muita gente gostou, em especial porque tratava sobre a questão do suicídio e tal. Foi uma época muito difícil da minha vida, então aquilo não deixava de ser uma leitura completamente pessoal sobre o tema – e se não me engano foi justamente por causa disso que o Paolo me chamou pra escrever as letras do que veio a ser a Suici.De.pression um ano depois. Foi um período meio conturbado existencialmente falando, então muita coisa eu acabei suprimindo da minha memória, mas acho que isso acaba por explicar de alguma forma toda essa história. Mas ainda que eu tenha essa proximidade com o Abske (como disse, morei com o Fred durante 8 anos e por conta dessa proximidade a gente sempre acabou por se ajudar em relação aos projetos um do outro), a minha única contribuição oficial e permanente como letrista é mesmo no Thy Light.

SBG: Existe um certo desencontro de informações sobre um suposto álbum do Thy Light, The Call of The Dark Forest, lançado entre a primeira demo e o disco de 2013. A página da banda na Encyclopedia Metallum informa que essas músicas não são de vocês, mas de outra banda, e que a desinformação surgiu a partir de um arquivo falso na internet. É isso mesmo? Como diabos aconteceu essa confusão?

Paolo: Aquela gravação era de uma extinta banda que eu tive, chamada Sergulath. Foi uma banda em que eu criei tudo e gravei sozinho também, porém possuía dois membros extras para shows, por isso digo que era uma banda e não um projeto meu apenas. O que aconteceu foi que aquela demo havia sido espalhada pela internet e quando o Thy Light acabou ficando um pouco conhecido, alguns oportunistas naquela de querer dizer que tinham um material exclusivo do Thy Light acabaram criando esse boato. Como aquela demo nunca foi lançada eu peguei e “desmontei” algumas músicas e usei o riff em uma ou duas músicas do Thy Light.

SBG: Falando nisso, como que Tim Yatras [multi-instrumentista australiano cujos principais referenciais são a dupla australiana de black metal Austere e o projeto solo avant-garde Germ] acabou fazendo uma participação especial no disco?

Paolo: O Austere sempre teve uma ligação forte com o Thy Light. Eu acompanhei o Austere desde sua criação, desde sua primeira música, sempre mantive contato com o Mitch devido a ele ter lançado o Thy Light, etc. Então desde aquela época acompanho tanto os trabalhos dele como os trabalhos do Tim. Sabia que ninguém melhor do que ele faria os vocais limpos da forma que eu esperava e por isso fiz o convite e ele aceitou de primeira.

SBG: As letras do Thy Light, como sempre no DSBM, são bastante fortes. Qual é a inspiração? Quem compõe a melodia e a as letras características do gênero REALMENTE precisa ser depressivo ou suicida, ou isso é apenas um papel que se interpreta, como artista?

Alex: A inspiração é tudo o que compreende a vida e a morte. Ou seja, algo estritamente humano. A vida é justamente isso: momentos bons intercalados com momentos ruins. Tenho a impressão de que na vida tive muito mais momentos ruins do que bons, ou pelo menos eles me marcaram de alguma forma muito mais significativa. Posso apontar exemplos das dificuldades que tive em diversas fases, bem como um período em que realmente estive deprimido e dependi de um tratamento pra que eu pudesse voltar a viver em paz novamente. Não é nada do que se orgulhar, à mesma medida que não é nada pra se envergonhar. É o próprio processo da vida. Acredito que tanto o Paolo quanto eu somos duas das pessoas mais bem humoradas que conheço, e na maior parte do tempo eu tenho uma vida razoavelmente “em paz”. Obviamente nos momentos de criação eu procuro me inspirar em tudo de ruim e todas as frustrações por quais passei na vida. Pra ser mais honesto ainda, procuro compor justamente quando estou passando por esses períodos ruins. Quero dizer, sou uma pessoa razoavelmente sociável, tenho bons amigos, e ainda que eu seja um tanto tímido pra lidar com pessoas que não conheço, isso não faz de mim uma pessoa reclusa como procuram parecer alguns dos membros de bandas de DSBM em geral. Até acredito que exista gente que realmente viva uma coisa assim, mesmo porque eu já passei por isso, mas não é algo que eu gostaria de viver pra sempre, definitivamente. Mas não é difícil se inspirar pra isso, o mundo ao redor parece sempre estar indo na contramão de tudo o que eu penso, as pessoas vivem cada vez mais em seu universo de mesquinharia, de opressão e de rancor… tentar enfrentar isso dia após dia já é matéria-prima o suficiente pra tudo o que alguém poderia esperar de uma banda no estilo, acredito.

SBG: Vocês se inspiram em alguma banda ou autor específico nas composições? Há alguma obra que tenha sido um marco para vocês?

Paolo: Tudo que escuto acaba me inspirando musicalmente então fica meio difícil citar uma banda ou outra apenas já que sou muito eclético.

Alex: Depende, não é necessariamente uma inspiração direta na maioria das vezes na hora que escrevo, mas obviamente as letras do No Morrow Shall Dawn tem algumas inspirações muito claras, como a obra cinematográfica do Andrei Tarkovski: o sentimento de nostalgia presente não só em seus filmes como na minha vida. Existe uma frase dele que é bastante sintomática, que ele resume seus filmes de uma forma poética e bastante sucinta: “Quero fazer filmes que ajudem as pessoas, mesmo que isso faça com que elas fiquem tristes por um momento”. Essa é uma questão importante quando penso no assunto. Escrever sobre suicídio e depressão não é exatamente uma forma de influenciar ninguém a nada, mas uma forma de justamente expurgar toda essa carga negativa que existe dentro de mim, e que isso possa comunicar com quem de fato as lê (e confesso que acredito que essas pessoas sejam minoria, ainda mais em uma época onde o contato com a música é feito cada vez mais em um mp3 player ao invés da obra física). Quero dizer, não é algo que tenha um valor “filantrópico” ou “altruísta”, mas ainda assim é algo que busca uma reflexão, uma comunicação com o outro. Ainda sobre o debut, a letra da faixa título é inspirada na faixa “Earth’s Last Picture” do Darkthrone (que na verdade tem a letra escrita pelo Garm, do Ulver) – aquela pra mim é a maior letra do Black Metal, porque ela tem toda sua carga de negatividade, niilismo, desesperança e beleza lírica na medida certa. Claro que jamais pretendi fazer algo que pudesse se equiparar, mas foi sem dúvidas uma inspiração bastante consciente. A letra de “Wanderer of Solitude” foi inspirada por uma pessoa que era extremamente presente na minha vida e sumiu, e ao longo dos anos que passavam aquele sentimento de abandono em meio ao silêncio sempre permeou de alguma forma minhas memórias em relação ao passado. Na época da primeira demo, por conta do tratamento contra a depressão eu lembro que estava lendo um livro que é bastante indicado pra todos os que sofrem da doença, o “Demônio do Meio-Dia”, do Andrew Solomon. Indiretamente, acredito que muito do que tinha lá acabava por me inspirar pra escrever algo. Mas as letras da primeira demo foram escritas de uma forma muito mais “próxima da morte”, por assim dizer. Eu trabalhava 12 horas por dia, de segunda a sábado, em uma fábrica de cristais, onde a sensação térmica era de 60 graus, independente da temperatura externa. Era tudo muito opressor, eu odiava aquilo tudo, passava o dia querendo morrer subitamente, e nos intervalos eu acabava por escrever aquilo no próprio bloco de relatórios do trabalho. A letra de “The Bridge” também foi escrita naquela época, foi inspirada no documentário de mesmo nome [sobre suicídios na ponte Golden Gate, em San Francisco/EUA], lembro que aquilo me marcou absurdamente na época… enfim, as inspirações são várias, mas em sua maioria se refletem de forma muito mais fragmentada do que direta.

SBG: Alex, além de letrista, você tem formação superior em cinema. De alguma maneira, esse gosto pela sétima arte influencia a maneira como as letras e a música são compostas? Existe algum paralelo entre cinema e música, ou são coisas completamente diferentes?

Alex
: Influencia sim, na pergunta anterior acho que já falei um tanto sobre isso, mas acredito que tudo que eu tenho um contato direto acaba por me influenciar. E acredito que a arte é por si só um elo direto entre a vida e a subjetividade. Não vejo diferenças nas formas de compreender artisticamente a música e o cinema, assim como acredito que toda forma de arte dialoga com seu espectador de uma forma. Mas é aquela coisa, vivemos em um mundo onde a cultura é a regra e a arte é a exceção. Tudo tem o seu valor, acredito, mas não consigo conceber de que forma o cinema de estrelões como o Steven Spielberg e Michael Bay pode me dizer algo de tão profundo sobre a existência quanto a obra de um cineasta como John Cassavetes ou Robert Bresson. Adoro gibis da Turma da Mônica, mas sei que eles não vão me fazer refletir sobre questões metafísicas da forma que os quadrinhos escritos pelo Neil Gaiman fazem, e da mesma forma não reajo igual enquanto ouço bandas como o Raimundos e o Swans, pra citar dois exemplos de bandas que eu gosto e ouço regularmente, mas me fazem refletir sobre sua essência de forma completamente distinta. Quero dizer, existem artistas que emulam o mundo, e em grande parte são bons… Outros criam através de sua obra o seu próprio mundo, e me agradam muito mais mesmo que os ache maus, por conta de sua honestidade criativa. Vamos retomar o nome de Bresson que citei logo acima, ele era um cara rigorosamente católico, com valores muito grandes sobre a fé. Tarkovski era ortodoxo, e talvez o mais espiritualista dos cineastas. Eu sou ateu, nem sequer consigo conceber o conceito de espiritualidade que o mundo tenta impor através da religião ou dessa fé coletiva que é passada através das gerações quase que por osmose. No entanto, a arte é a minha maneira de experimentar essas experiências “metafísicas”. Da mesma forma que não acredito em nenhum deus, acredito que é justamente por causa da fé que um filme como “O Sacrifício” faz todo o sentido. A cena em que o meu xará Alexander incendeia a própria casa é justamente a prova de que naquele universo em particular, a sua fé traz a redenção. E isso é uma coisa incrível, é utilizar a arte e as ferramentas humanas pra nos fazer experimentar algo completamente supra-humano. Nisso chegamos a outro ponto: se a arte pode realizar essas experiências, isso se torna quase que uma obrigação. Ou em outras palavras: por que me contentar com o regular se isso pode ser de uma ordem muito superior ao padrão? Não tiro o valor daquilo que é consumido e produzido de acordo com os padrões, mas valorizo bem mais tudo aquilo que tem uma pretensão maior, de atingir a humanidade em um nível que a tire de sua zona de conforto e a faça refletir sobre o mundo ao seu redor e, sobretudo sobre si mesma. Acredito que somente isso pode transformar o mundo. Mas isso, antes de tudo, é uma questão de fé. A quebra disso é justamente o ponto de partida na hora de compor qualquer coisa pro Thy Light.

SBG: A banda é formada por um letrista e um multi-instrumentista. Na hora de compor, o que vem antes? Letra ou melodia? Como fazem para que essas duas partes, criadas em separado, fiquem coesas?

Alex: Na primeira demo eu escrevi e só fui ouvir o resultado final depois. No debut eu ouvi bastante as musicas instrumentais antes de ter escrito a maioria das letras, e elas me ajudaram a desenvolver um conceito. De qualquer forma as letras pra primeira demo costumavam ser maiores, o Paolo as lapidava de forma que elas encaixassem sem que perdessem a essência original, cortando alguma frase ou outra. No fim das contas a coesão disso tudo é justamente a soma da minha subjetividade com a dele: um mais um que formam não duas coisas distintas, mas uma unidade maior.

SBG: Ao ouvir No Morrow Shall Dawn, às vezes sinto um pé no post-black metal. O álbum me parece mais ambient e mais fácil de digerir quando comparado à demo, que soa mais crua e violenta. Vocês concordam com essa avaliação? O que motivou essa mudança sonora?

Paolo: Na época do No Morrow Shall Dawn eu estava ouvindo muito a fase nova do Katatonia, acho que foi isso que influenciou um pouco na “suavizada” que o som teve.

Alex: Eu concordo em termos. Em certo aspecto, um estilo mais cru como na Suici.De.pression é mais difícil de agradar qualquer pessoa que esteja mais antenada a outros estilos, mas por sua vez é mais fácil de ser compreendida por pessoas de um determinado nicho. Já no No Morrow Shall Dawn alguns trechos tem mesmo essa relação com outros estilos, e isso pode acabar agradando gente que goste de uma coisa diferente do DSBM tradicional, mas acaba sendo muito mais difícil de compreender artisticamente. Quero dizer, mais pessoas podem ouvir, mas quantas de fato pararam pra refletir sobre aquilo que estão ouvindo? Com quantas pessoas aquela música estabelece uma relação que não seja a de mera mercadoria-consumo, mas sim de agregação artística? E no fim das contas eu nem considero tudo isso como uma mudança, seja ela musical ou lírica, é só um reflexo de todas as influências musicais e pessoais distintas que vão acabando por moldar algo em relação ao nosso processo de criação. É o processo natural de mudanças da vida.

SBG: Pessoalmente, gosto muito do logotipo de vocês. É bem legível para os padrões do black metal e realmente representa as características da música. Quem fez a arte?

Paolo: O criador foi o mestre dos logos, pra mim o melhor, Christophe Szpajdel. Eu apenas acrescentei as forcas depois e o logo ficou da forma como é.

SBG: O Paolo também toca no Desdominus, banda de death/black metal melódico. Além desses estilos e do DSBM, que mais vocês curtem ouvir e tocar, mesmo fora do metal?

Paolo: Bom, eu escuto muita coisa, muita coisa mesmo… como costumo dizer, pra mim não existe estilo de música ruim ou bom, o que existem são músicas ruins ou boas. Poderia citar bandas aqui por anos, hahaha, mas minha banda favorita mesmo, que está acima de tudo é o Metallica (do Kill ’em All ao S&M). Eu gosto bastante de Hardcore Nova Iorquino, Death Metal Sueco, Música clássica e qualquer outra forma de música depressiva.

Alex: Pra falar bem a verdade, de DSBM mesmo eu ouço pouquíssima coisa. Prefiro Black Metal Norueguês tradicional quando nos referimos ao Black Metal, embora meu estilo mais próximo seja o Doom Metal em suas diferentes vertentes: desde o tradicional até o funeral, é algo que sempre me foi muito mais próximo. Minha banda favorita é o Black Sabbath, então toda banda que se pareça com o Sabbath (seja de forma mais lenta, de forma mais depressiva, de forma mais emaconhada ou psicodélica em geral) costuma me agradar, e o Doom Metal é onde Iommi e cia. mais deixaram filhos, eu acho. Gosto bastante da maioria dos subgêneros do Metal e do Hardcore Punk, pra não dizer do Rock n’ Roll em geral. Mas enfim, eu prefiro não me ater muito a gêneros e sim a sonoridade. Se tem algo a me acrescentar, eu ouço sem preconceitos. E eu não sou músico, na verdade. Tenho um violão e só sei tocar Smashing Pumpkins… eu costumava tocar baixo, mas desde que o meu Type o Negative cover dos tempos de escola acabou, nunca o toquei de forma muito séria, nunca tive nenhuma banda que de fato tenha engrenado, e isso tudo é basicamente um hobby pra mim.

SBG: Vocês tem um sucesso notório fora do Brasil, são um marco para o DSBM no mundo, mas ainda tem pouco reconhecimento por aqui. Qual a opinião de vocês quanto ao público brasileiro e essa fraca relação com os estilos mais obscuros de metal?

Alex: O público é bom, na verdade. Conheço bastante gente que realmente se interessa pelo estilo, bem como por outros igualmente obscuros como o Funeral Doom e Dark Ambient, por exemplo. Mas ainda que o público seja bom, ele não é volumoso. Acredito que isso seja uma característica da própria sonoridade dessas bandas: a maioria delas vive no underground, não fazem muitos shows, não tem grandes gravadoras interessadas em divulgar seu material, não tem muitos eventos específicos. Mesmo fora do Brasil acredito que isso seja assim. Tem uma quantidade relevante de pessoas do México, Itália e França que se correspondem elogiando o nosso som, mas ao mesmo tempo esse é mais ou menos o mesmo número de pessoas daqui que fazem o mesmo. Particularmente não me preocupo com isso, mas acho que isso nunca foi um problema nem pra quem toca e nem pra quem escuta esse tipo de som.

SBG: Existem planos para reunir mais músicos e, quem sabe, tocar ao vivo em breve?

Paolo: Já recebemos convites pra isso, porém, como não vivemos de música é algo que dificulta um pouco. Eu já toco em outra banda e meu tempo livre é dedicado a ela. Eu gostaria de tocar ao vivo com o Thy Light um dia, mas por outro lado não sei como me sentiria em ter que “simular” o sentimento que tive quando criei as músicas, talvez não fosse honesto subir no palco sentindo algo internamente que fosse diferente do que senti quando gravei. Mas não descarto totalmente, talvez um dia isso aconteça.

Alex: Eu realmente espero que sim, seria uma experiência completamente diferente. Claro que as dificuldades existem, mas nem por isso não deixa de ser um plano pra um futuro que espero que possa ser próximo.

Agora, as perguntas clichês, sem graça e rápidas que não podem faltar:

Time de futebol?

Paolo: Aqui é Corinthia!

Alex: Sport Club Internacional, em especial o de 1997: a expectativa gerada pelo título do Gauchão e frustração com a perda do título Brasileiro é uma das gêneses da depressão rubra nesse mundo. Obrigado Fernandeus por nos redimir.

Cinco principais influências no som do Thy Light?

Paolo: Nostalgia, depressão, decepção, fraqueza e eu mesmo que eu sou um merda.

Alex: Falando sobre as letras: Minhas ex-namoradas, a falta de perspectiva de um futuro promissor, Billy Corgan [vocalista e guitarrista do Smashing Pumpkins] na fase jovem-inconsequente-deprimido, Cinema não-mainstream e o Jovem Werther que existe dentro de mim.

Se pudessem escolher cinco bandas para tocar num festival, quais seriam?

Paolo: Vou escolher 5 que ainda não vi mas sonho em ver: Bolt Thrower, King Diamond, Mgla, Katatonia e Dissection (nunca verei).

Alex: Black Sabbath, Emperor, The Smashing Pumpkins, My Dying Bride e Mercyful Fate. (Já vi três das cinco, mas as cinco juntas seria a coisa mais inesquecível de todos os tempos). Mas realmente, pra mim seria incrível poder rever o Dissection.

Reign In Blood ou Show No Mercy?

Paolo: Reign in Blood. Aliás, é o único disco do Slayer que eu gosto.

Alex: Show no Mercy, um dos meus discos favoritos de todos os tempos e sem dúvidas a coisa mais profana que o Thrash Metal um dia já lançou. Duvido que o Black Metal um dia se tornaria algo próximo do que foi (ou é, que seja) sem esse disco. É uma das gêneses do VERDADEIRO MAL!

Ozzy ou Dio?

Paolo: Pode ser nenhum? Ahahahaha. Bom, entre os dois, Dio.

Alex: Dio era melhor cantor, mas Ozzy é uma entidade de ordem superior. A fase do Sabbath com o Ozzy é a melhor coisa que já foi produzida em termos musicais, então tenho de ficar com o “Madman”.

Fora do metal, gostam de quais gêneros?

Paolo: Hardcore, Facção Central (não coloquei “Rap” porque de rap só curto eles mesmo), Punk, Música Clássica, Post Rock e Grunge.

Alex: Gosto de tudo que seja proveniente do Rock n’ Roll, em especial o Hardcore/Crust, Stoner, Rock Alternativo dos anos 90, Post-Rock e o Pós-Punk. Gosto muito de Tango, de Eletrotango, Folk, de Neofolk, de Blues, Industrial, Trip-hop, de algumas coisas de Bluegrass e música regional (em especial Payadas e Milongas), além de música Erudita e Neoclássica em geral. E ah, claro, Facção Central! Facção Central é foda.

Zezé Di Camargo e Luciano ou Chitãozinho e Xororó?

Paolo: Passo… hahahah.

Alex: Chitãozinho e Xororó: são mais old-school, tem o clássico “Fio de Cabelo” (origem do Doom romântico brasileiro), e um deles ainda deu origem aos irmãos Sandy e Júnior, que no auge do besteirol televisivo dominical noventista brasileiro revelaram a grande Fernanda Paes Leme, bons tempos! Mas de verdade mesmo, eu prefiro Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho e por aí vai… sem me esquecer é claro de Milionário e José Rico, estrelas do filme “Na Estrada da Vida” (não o do Fellini, mas o do único cineasta brasileiro Imortalizado pela Academia Brasileira de Letras: Nelson Pereira dos Santos).

*** 

Para saber um pouco mais sobre a banda, veja uma mini resenha da demo aqui. Os dois trabalhos podem ser adquiridos através do Bandcamp da Pest Productions. Confira também a página no Facebook e o perfil no Last.fm!

Equipe SBG

COMPARTILHE
Jornalista de 22 anos formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná. Gosto de futebol, amo o Internacional e escuto música podre.