SBG Entrevista: Rodrigo Berne (Tuatha de Danann)

Quando se pensa em folk metal brasileiro, um dos nomes que sempre são lembrados é o do Tuatha de Danann. O Scream Blog Gore entrevistou o guitarrista da banda, Rodrigo Berne.

“Hoje [eu e Bruno] estamos fazendo outro CD do Tuatha e trabalhando juntos, e cada um respeita o que o outro quer fazer, sem treta e sem perder o foco na banda.”

Na entrevista, realizada por e-mail, ele falou sobre o motivo da saída do vocalista Bruno Maia em 2010 e sobre um provável novo álbum, previsto ainda para 2014. Também relatou os motivos que levaram à reunião da banda, disparou contra o folk metal nacional, relembrou o início da carreira e condenou os downloads ilegais.

Foto: Di Beo Fotografia

O Tuatha de Danann vem de Varginha-MG, terra do simpático ET, e já tem quase dez anos de carreira, além de uma discografia com três full-lengths, um DVD ao vivo e três demos. Com o som sempre marcado pelo clima alegre e instrumental competente, os mineiros alcançaram destaque nacional e internacional na primeira metade dos anos 2000, quando chegaram a aparecer no programa do Jô (!).

Confira:

Scream Blog Gore: A banda foi fundada em 1995 com o nome de Pendragon e fazia um som mais voltado ao Doom Metal. Junto com o lançamento da segunda demo, o grupo foi rebatizado e se tornou o “Tuatha De Danann”. Houve uma nítida mudança na proposta da banda, que passa a tocar folk, com destaque para flautas e violinos. O que ocasionou essa mudança no nome e na sonoridade da banda?

Rodrigo Berne: Primeiramente já existia uma banda com o nome Pendragon e o nome Tuatha de Danann tinha mais a ver com o que estávamos querendo. Naturalmente o som foi mudando porque começamos a ter acesso a novos tipos de música e também fomos melhorando como músicos.

SBG: Ainda sobre o nome: convenhamos, ‘Tuatha de Danann’ soa esquisito para muita gente! Da onde surgiu esse nome tão diferente?

Berne: Da literatura celta. Eles representavam um importante povo antigo da região irlandesa e dos arredores da Europa e ficaram conhecidos por seus costumes, heróis, mitos e conhecimento sobre a natureza.

SBG: Na década de 90, vocês abriram um show do Blind Guardian em São Paulo. A banda ganhou espaço a partir disso? Como essa apresentação interferiu na carreira de vocês?

Berne: Na época estávamos lançando a segunda demo, ainda éramos “crianças”. Falamos assim: “Vamos ligar para a produtora do show e ver o que rola?” Ligamos e eles falaram que o valor era R$ 2 mil para abrir. A gente começou a fazer uma corrida por dinheiro! Fizemos rifas, show em bares e assim juntamos a grana. Foi a primeira e única vez que pagamos para tocar. Depois disso não paramos mais de tocar em SP e temos um público bem grande lá.

SBG: Um perrengue que muitas bandas novas enfrentam é justamente gravar o primeiro trabalho. Tiveram muitos problemas para conseguir essa gravação ou foi uma experiência tranquila?

Berne: Foi tranquilo! Era muito divertido, a gente só queria saber de fazer isso o dia inteiro. Tínhamos uma gravadora pagando e o estúdio ficava por nossa conta. O único problema era que não sabíamos produzir nossas músicas. Hoje cuidamos de toda a produção.

SBG: Depois de três lançamentos em quatro anos, a banda ganhou cada vez mais espaço no cenário nacional. Apareceram no programa do Jô, venceram a etapa nacional do Wacken Metal Battle e foram à Alemanha tocar no Wacken Open Air. Como foi a experiência? O público europeu é muito diferente do brasileiro?

Berne: Na verdade, foram quatro lançamentos em quatro anos*. Sobre o Wacken, nós não participamos de seletiva nacional. Na época não existia isso. Desculpe a falta de modéstia, mas nós ganhamos o primeiro Metal Battle quando estávamos de turnê na Alemanha. Depois disso o diretor do Wacken ficou impressionado com o trabalho e abriu as portas para uma banda do Brasil ir lá todo ano. Foi demais, isso provou pra todos que éramos profissionais e o pessoal começou a respeitar mais.

SBG: Após esse período de ouro, vocês não lançaram mais material inédito. Dá pra considerar essa fase como um declínio da banda? Quais os motivos dessa escassez de lançamentos?

Berne: Sim, o último lançamento foi o DVD em 2009. Em 2010 a banda parou devido a problemas internos que já foram superados. Realmente não foi bom, mas não houve um declínio e na verdade a banda está maior do que era quando paramos. E o que vai vir daqui pra frente vai causar mais impacto ainda!

SBG: Em 2010, o multi-instrumentista Bruno Maia saiu do Tuatha. Houve uma parada e muitos acreditavam que a banda encerraria as atividades permanentemente, o que não aconteceu. Que motivos levaram Bruno a deixar o grupo? Os projetos paralelos em que ele se envolvia contribuíram para a decisão? 

Berne: Nós paramos quando ele saiu. A banda não tinha mais um vocalista e as coisas ficaram complicadas. Acho que ele cansou um pouco do som da banda e foi fazer o Braia, que tem um pé na música brasileira. Projetos paralelos podem atrapalhar, isso depende da postura, mas se tomar cuidado nunca atrapalha.

SBG: Foi muito desanimador tentar prosseguir com a banda sem o Bruno? Vocês até encontraram outro vocalista, chegaram a gravar algo como teste, mas não prosseguiram por problemas internos… O que aconteceu ali? Acharam que a banda nunca mais voltaria à ativa?

Berne: Eu não queria parar mesmo, mas os outros não queriam continuar. Era minha banda, eu poderia fazer isso, mas seria mais um problema e eu não estava nada bem. Joguei tudo pra trás e comecei do zero. O Bruno estava fazendo o Braia e eu não ia esperar ele voltar. Era desanimador, mas isso me deixou mais esperto e melhorou meu lado de compositor, porque comecei a compor sem ele, e hoje isso se reflete nos meus trabalhos. Tenho uma confiança maior no que quero fazer. Hoje estamos fazendo outro CD do Tuatha e trabalhando juntos, e cada um respeita o que o outro quer fazer, sem treta e sem perder o foco na banda.

SBG: Depois de alguns anos afastado, Bruno retornou para o Tuatha. Como a banda lida com os outros projetos dele, como o Kernunna e o próprio Braia? Além disso, também tem o Tray Of Gift, a que você se dedica… Essas outras iniciativas afetaram o processo produtivo e criativo de vocês? 

Berne: Não! Cara, a gente tem muita coisa para o Tuatha e vamos provar isso esse ano. Quando a banda parou, eu fui cuidar da minha vida e fiz o Tray. Não controlo nada, cada membro faz o quer fazer… Mas agora existem mais essas três bandas, (risos). A gente poderia ter juntado tudo isso e feito um CD do Tuatha… Mas a vida caminhou para isso.

SBG: Em 2014, a banda voltou de um hiato que durou três anos. O que motivou vocês a voltarem? O que podemos esperar do Tuatha? Vai rolar um álbum novo, finalmente?

Berne: O Tuatha é uma banda muito respeitada no mundo inteiro. Demos parte de nossas vidas para isso e não poderíamos deixar que isso acabasse. A banda era maior que todos nos. O Tuatha vai lançar um novo CD esse ano e eu tenho certeza que vai ser um trabalho magnifico porque nós fazemos com o coração e com a cabeça nas coisas superiores.

SBG: Agora, uma pergunta que sempre é interessante fazer pra bandas mais ‘independentes’, já que as perspectivas variam tanto… O que pensam a respeito da pirataria, por exemplo, downloads de álbuns? São contra? Ou consideram que nos dias atuais isso é inevitável e, de certa forma, até ajuda na divulgação?

Berne: A pirataria é uma doença sem cura. Então cabe às bandas driblar isso e lançar coisas diferentes. Ela ajuda sim, mas em longo prazo você sente que perdeu dinheiro, (risos).

SBG: Pode apontar algumas bandas nacionais em que você vê potencial, tanto no folk metal quanto em qualquer outro estilo? 

Berne: Gosto muito do Unearthly, mas agora folk metal… Tá foda, as bandas copiam demais as bandas europeias, ficam pintando a cara e colocando roupinhas de guerreiros. Nossa, parem com isso, parece um circo… Temos muitos músicos especializados em música irlandesa, entre outros tipos de folk… Mas eles não aparecem no meio heavy metal.

SBG: Algum recado final?

Berne: Esperamos todos vocês nos shows, acompanhem a banda nos meios de comunicação. BELIEVE IT’S TRUE!

*Na discografia da banda constam apenas três álbuns de estúdio, gravados entre 2001 e 2004. O blog pediu, pelas redes sociais, que Rodrigo Berne esclarecesse qual seria o quarto trabalho, mas não obteve resposta.

Rodolfo Silva 

2 COMENTÁRIOS

  1. Gostaria de fazer uma reclamação: esta foto fui eu que tirei (vide minha página no facebook: Di Beo Fotografia), entretanto, não encontrei em lugar nenhum da matéria os devidos créditos, mesmo dispondo de creative commons, é obrigatório, ao divulgar a foto em sites e locais públicos, o devido crédito ao autor da imagem. Corrijam este erro o mais breve o possível, caso contrário serão tomadas medidas legais contra o blog

    abs

  2. Olá! Realmente, erro nosso. Passou em branco na hora da edição. Já está corrigido, com créditos e um link para o trabalho. Pedimos desculpas e garantimos que não queríamos prejudicar ninguém ou deixar de dar os devidos créditos ao trabalho.

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